sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Envelheço na cidade

Praça Paris, na Glória. Porque meu aniversário merece um lugar bonito para visitar
Estou chegando aos 38.

Tenho vivido no último ano e meio uma epopeia de novidades. Fui abençoado por ter tido respaldo nos momentos mais agudos da minha mudança para o Rio e, quando já pude caminhar sozinho, conheci sensações que só vive quem se despe da dependência.

Conheci pessoas de todos os matizes que têm marcado desde sempre a minha nova trajetória. Vivi duas paixões avassaladoras, momentos que tiveram de lidar com uma tsunami de intempestividades do meu espírito. Muito dela, no entanto, foi no afã de deixar em todos uma mensagem afetuosa.

Nem sempre fui compreendido, mas isso faz parte do jogo.

O presente se revela feliz e o futuro, promissor. Ainda tento espantar algumas agruras do passado: quando quiseram, de forma violenta e assaz cruel, tomar as rédeas de minha vida e exigir que eu me relacionasse com uma pessoa de quem eu sequer gostava, e que também não gostava de mim. Porque eu "não tinha direito" a nada além disso (até hoje busco uma resposta razoável pra um acontecimento tão violento); uma dolorosa exclusão de um passeio; de quem zombou de meus sentimentos num desamor qualquer.

Tudo é caminho, tudo é lição. Como diz um certo Rei: daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Aos que me machucaram um dia... vão em paz, mas não vos quero mais. Fico somente com aqueles que que me ajudam a construir a trajetória. Agradeço por permitir que eu também ajude na de vocês. Sou abençoado por trocar um pouco de felicidade com todos.

Agradeço, sobretudo, pela família onde nasci. Devo aos meus maravilhosos pais toda a base, fincada na pureza de caráter e no amor ao próximo (este, no sentido mais amplo da palavra).

Vamos juntos, que a história continua. Teremos coisas bonitas pra contar


Apenas começamos.


domingo, 26 de outubro de 2014

Até breve

Doloroso, mas necessário.

Era uma mulher linda e simpática, por quem eu aprendi a nutrir muito carinho. Tinha uma queda por ela desde a primeira vez.

Até que certo dia nos abraçamos. Aquilo foi tão forte que quis repetir. Como ela mora a uns bons quilômetros de mim, quis vencer a distância e investir numa conquista. Mesmo sabendo que não seria nada fácil.

Numa festa, eu a revi. Veio conversar comigo. O papo durou meia hora, e valeu por uma eternidade.

Dia desses, escrevi um texto em sua homenagem e joguei no ar. Era cheio de entrelinhas, porque não queria expor ninguém. Mandei pra ela.

Gostou e elogiou. Não percebeu!

Já fazia meses que não a via. No reencontro, me recebeu com certa secura. Desanuviou depois, mas aquilo me entristeceu um pouco.

Respirei fundo e procurei me vencer e desenhar tudo. Aproveitei o melhor momento:

“Aquela era você”.

Sorriu e tentou rememorar trechos. Mas ainda assim evitou mergulhar fundo.

Por essas e outras que devo concluir que faltou conexão. E a pá de cal foi ela ter vindo cá pra perto e não dar sequer um sinal.

Quis ao menos ter a oportunidade de conversar. Conhecê-la. E que o tal “acaso” decidisse o que aconteceria. Mas a energia deve ser despendida com quem se interessa por mim. Convidei pra almoçar e pedi o telefone. Fui ignorado nas duas vezes.

Então, basta! Cansei de ser desprezado. Digam ao povo que não, não fico! Abro mão de tua beleza, mas nunca do meu amor-próprio. Sei que tenho valor e vou em busca de quem realmente goste de mim.

sábado, 25 de outubro de 2014

O último romântico

Nas coisas do coração, não sei jogar. Sou o que chamam de romântico incorrigível.

Houve um tempo de muito acanhamento; fantasiava, e quebrava a cada desilusão. Passei tanto tempo assim que, quando minimizei o fantasma, perdi todo o tempo de aprender os passos.

Assim, ainda preciso tirar a poeira do acanhamento da infância no presente. Se me chamam de tímido, me sinto insultado.

E, sim, é um ultraje!

Se fosse, não faria palestra, me esconderia do público e não conseguiria desempenhar bem o meu papel de locutor. É certo que alguma insegurança ainda me assombra, mas nada que me impeça de seguir.

Se a vida ensinou que de algum jeito é preciso arriscar, prefiro não seguir um script. Incuto tópicos dos gurus, mas não me prendo a técnicas. Se o fizer, me enrolo. E tudo vira desastre.

Deixa que o vento determine a direção da nau. Que os olhos e o rosto digam os passos a seguir. E o coração faça o desfecho que puder.

Que posso fazer? Esse sou eu; incipiente em estratégia e repleto de sentimento. Presenteio, digo palavras doces e aceno saudade. E, dizem, isso atrapalha, porque pula uma etapa.

Enamorei-me certa vez de uma pequena de um trampo anterior. Era cheia de sorriso e insinuava doçura. Acabei por me perder. Dei-lhe uma prova do quanto a apreciava, e ela agradeceu surpresa.

Investi. E me dei mal, muito mal. Porque aquela doçura era só aparência. Ela não deixou pedra sobre pedra. Disse estar em outro lance, e curtia muito. Não tava afim de problemas. Dei um tempo e cometi a burrada de tentar de novo. Estava tão empolgado que era até alvo de gozações que às vezes ultrapassavam todos os limites.

Até que um dia ela trocaria de emprego. Dou parabéns e lhe peço o telefone, para não perder contato. A resposta vem sem medo de ser deselegante. “Você já me tem no Facebook.  Acho que já está bom, não é?”

Pela segunda vez me era cruel. Não valia a pena prosseguir. Como disse um grande amigo: “Página virada”.

Era o fim melancólico de mais um capítulo de desilusão. Lembro que, certa vez, mudo a direção e vou almoçar com a turma dela, pra me reaproximar. Não quis enxergar o profundo incômodo que ela sentia. Tanto é que, na segunda vez, o setor se dividiu, e ela foi por uma turma diversa pra me evitar.

Recordo desse lance sem incômodo. Se não dá pra agradar a todos, azar. Fio-me em quem realmente gosta de mim.

Uma reflexão se faz necessária. Se desapareço aos olhos delas, é porque talvez as desconheça. Dou um pouco de mim a quem provavelmente vai desaparecer. Entristeço, mas não arrependo. Porque me venci, e não me escondi.


Se preciso for rever conceitos, respiro e incuto novas mentes. Mas não me peça ninguém para transformar-me no que não sou.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma torrente de decepções

Nem sempre é possível manter o astral lá em cima. De vez em quando, somos abatidos por alguns momentos de tristeza. E esse ano nada me desencantou mais do que o esporte.

Nada se compara à imensa melancolia que experimentei depois daquele fatídico sete a um.

Lembrei-me da paixão que aprendi a nutrir por aquela camisa amarela ainda aos seis anos. A mágica orquestra de Telê jogava por sinfonia, e um desafino “azzurreal” pôs tudo a perder. Ainda assim, deixou uma página bonita na nossa história.

No Mineirão, a atonia não se limitou aos “jogadores”. Revelou também a extrema pobreza presente de uma armada deitada em berço esplêndido nas glórias passadas.

Levei uns quinze dias pra me recuperar totalmente de tamanha vergonha. E achei que nada poderia ser pior do que aquilo.

Outras decepções se sucederam.

O basquete masculino fazia um papel digno: chegou a me encher de orgulho quando bateu com autoridade na Argentina. Jogou tudo pelo ralo numa pane elétrica contra a Sérvia. Era uma versão ampliada do sete a um.

Nem mesmo o vôlei, minimamente organizado por aqui, escapou de deixar lá a sua contribuição. O masculino trouxe da Polônia um honrado vice-campeonato, mas o feminino, bicampeão olímpico, ressuscitou os fantasmas de Atenas e do Japão. O inexperiente escrete ianque comandado pelo espetacular Karch Kiraly impôs o respeito que um três a zero merece.

Mas quem chora de fato é a alma alvinegra. Porque a chama que a faz amar aos poucos se apaga.

No Campeonato Brasileiro, vive a síndrome do Robin Hood: vence os grandes e sucumbe diante dos pequenos. Quando eu pensei que a Copa do Brasil poderia ser um alento, vem o Mineirão e me impõe outra tragédia.

O confortável dois a zero inicial poderia dar a tranquilidade necessária para um jogo de volta que anunciava uma blitze do vingador em busca da virada. E logo de saída, Guerrero balança a rede atleticana. Parecia que tudo caminharia bem. Confiava na maturidade daquele onze para suportar a pressão que viria dali pra diante.

Mas o Galo valente virou o jogo já no primeiro tempo. Desacreditei do pior. Prometi que, se acontecesse, abandonaria o fanatismo e só voltaria no ano que vem.

O dia exaustivo e um princípio de gripe me fizeram balear mais cedo do que o habitual. Não deu pra ver o descerrar das cortinas. Mas confiava na classificação.

Calor, nariz cheio e garganta a arrastar. Óbvio que não durmo direito. Corro à internet pra saber o que se sucedeu. Tragédia!

Sinto a habitual trovoada dos revoltados. Praguejo contra mano e seus “manos”, Gobbi e sua incompetência e todos os “santos” envolvidos. Não reconheci mais aquele gigante cuja história aprendi a amar. Parece-me desfocado ante tanta mesura. Empolado entre palácios e copas, parecia navegar em águas diferenciadas. Mas tantos torcedores desolados já identificam o fenecimento daquela alma guerreira. Evocando Zé Geraldo, no palácio o operário não pode entrar. Logo ele, que escreveu todos os capítulos essenciais dessa história.

Na sequência do mineirazzo, toda a pose se perdeu. O Galo veio mais vingador do que nunca e contruiu a sua antologia. Às custas de uma camisa que não soube sustentar a própria grandeza. Esperava, ao menos, a maturidade de jogar pelo resultado. Sobrou do Mineirão a centelha do vexame do oito de julho.


O coração alvinegro, tão surrado, pede um tempo pra respirar. Por ora, cumpre a promessa e se recusa a sofrer. Como diz o outro, agora, só amanhã. 

Feliz Ano-Novo!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A palhaça do Shopping Light

Como já disse certa vez, vim à vida para não exacerbar o bom humor. Por natureza, me porto com seriedade e não aprovo alguns arroubos.

Dia desses estou no Shopping Light, aquele da Praça Ramos de Azevedo, em vias de pagar uma conta telefônica. Passo na loja e imprimo uma nova via da fatura. O atendente me recomenda pagá-la na agência lotérica do andar de baixo.

Enfrento a fila e me deparo com uma situação peculiar. A caixa, cuja voz se ouve a certa distância, faz graça:

- Obrigado por esse lindo papel que vou ter de digitar - era decantada ironia. Não deu pra saber se no tom de brincadeira havia uma rusga de escárnio. Não havia laser, então deveria inserir à mão o código de barra. E que culpa eu tinha nisso?

Esperei até que ela concluísse a operação. Falou um valor diferente, e eu, querendo responder à suposta simpatia, peço pra ela não me assustar. Completo a minha parte no acordo. 

- O senhor não tem saldo suficiente.

Levo um susto e entro em momento de pânico. Era começo de mês e estava tudo em ordem. Será que minha conta foi clonada? Ou houve alguma despesa a mais que eu por ventura não tivesse me lembrado?

Nada! A moça fez troça de mim. Disse que estava "tudo certo". Saí de lá sem sorrir.

É óbvio que não gostei. Foi deselegante e de extremo mau gosto. Principalmente porque não me conhecia e, portanto, não tinha liberdade para tal. 

A palhaça fez tudo errado. Antes de brincar, poderia ter dado um tudo bem. Poderia me deixar mais leve. Ainda assim, fiz um esforço pra permanecer agradável. Mas o indecente trote do saldo na conta ultrapassou todos os limites do aceitável. Deixei a loja bastante contrariado.

Não sou nenhum ranzinza, mas não gosto de gracinhas desse tipo. Existe uma linha tênue entre a brincadeira sadia e o sarcasmo desnecessário.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Essência paulistana

Paulo de Tarso; o disseminador do
Cristianismo dá nome e identidade a São Paulo
No dia em que te deixei, recolhi uma centelha pra querer-te em meu coração. Como o futuro exigisse, parti. Mas a alma queria ficar.

Cresci no lugar onde o rio se derrama. Rebouças, Teodoro, Fradique e Pedroso se tornaram conhecidos de longa data. Mas é Madalena que me dá saudade. A professora repleta de sabedoria e harmonia. Dizem que era filha do fazendeiro dono daquelas plagas. Suas irmãs, Ida e Beatriz, preferem a discrição. Deixam Madalena brilhar. E como brilha! Com alegria um dia me mostrou alegoria: anel de luzente Pérola Negra.

Santa Batucada! Sai da São João, segue Tiradentes afora e chega à casa de Otelo. A chuva castigou aquele carnaval. Os herdeiros de Pirapora não pipocaram. Nenê, vai-vai à luta; bota uma rosa de ouro na lapela daquela camisa verde e branco e trilha a tua mocidade alegre. Que Leandro e Miguel peruchearam e aclimação é primeira em sua arte barroca. E a passarela também se deixa pisar por gafanhoto e gavião. O trem saiu às onze horas; contente, fui embora amanhã de manhã.

E o samba deu na capa da Gazeta. Como não recordar a Paulista de todas as horas, onde a direção de minha vida se firmou? Onde tua arte pulsa mais forte: um paraíso de eterna bela vista, em que imagens de grafite invadem o palco e nos contracenam. E Augusta? Quanto fascínio! Dorme nos jardins e acorda nos arrabaldes rumo ao centro.

A “cidade” da cidade mereceria um capítulo especial. Dona Consolação nos deságua pra tomar um chá na casa de Ramos de Azevedo. Ali jaz orgulhoso um passado de luta: na linda Sé foram gestadas as Diretas Já; e no vale onde corre o rio de mau espírito, elas se consolidaram.

E por falar em história, ela se revela no tempo em que a cidade se rebela. Corria o Trinta e Dois quando os paulistas enfrentaram Vargas. Ainda que derrotada, não esquece a empreitada. Nove de Julho e Vinte e Três de Maio são fagulhas. Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, mártires, 

Do Marco Zero sigo saudoso para a gênese: no Collegio a história começou. Ali o propagador do
A cidade revela o tempo em que se rebela. Vinte e Três de Maio
é só um entre tantos marcos de trinta e dois. Enquanto isso,
o presidente Vargas nem aparece.
cristianismo marcou-se infinito na identidade de sua gente: Paulo! Paulista! Paulistano! A inquietude desse ser assusta os incautos irmãos de outras terras. É preciso fazer ir ao mundo como se o dia comportasse um mês. E sua percepção crítica, tão necessária, às vezes transborda: quero qualidade de vida!

Lá também se encravam lembranças. Minha mãe trabalhava onde a luz incide mais forte. De frente pro parque e de costas pra “zépa”. Naquele pedaço nasceu inesquecível amor. Sob lampião e bênçãos de Jorge, operários foram o destino de uma ideia que partiu da Grécia e passou por Bretanha. Corinto; Corinthian; Corinthians!

Ê Nação alvinegra de tanta antologia. Fez casa do Paulo Machado e lá escreveu tantos capítulos. Num deles, derrotamos o Flamengo de um já envelhecido Galinho. Precisávamos tirar uma diferença de dois a zero, e chegamos aos quatro a um necessários. Mas Leovegildo achou um contra-ataque e nos desclassificou no descerrar das cortinas.

A água derramada de pierê fez foz na terra dura de Butantã. Sob as asas de Corifeu moravam meus avós. Mara vestia-se de zelo: nunca faltava no momento de aperto. Dito era todo generosidade – de riso, doces e guaranás. A filha tornou a casa. Herdeira de Dito, mima a neta em paz - e é pela pequena que tanto volto. E da janela vejo a universidade, onde tantas vezes meu pai nos levou para brincar.

Mas o velho veio d'além Dutra. Vivo a terra encantadora em busca de novos referenciais. Ela vence a luta do rochedo com o mar e resplandece, apesar de tanto padecer. Jesus abraça a Guanabara e me apresenta a sua mãe, que me recebe de braços abertos. Agradeço e aprecio, meu queridíssimo Rio.

A essência, no entanto, será sempre paulistana. Quando te deixei, recolhi uma centelha pra plantar-te em mim. Nunca parti. A alma te ama eternamente.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Desculpa, Gregório

Breve vista do Centro de São Paulo. O coração da Terra
da Garoa pode sim ser belo
O signo da rivalidade ainda pontua as duas maiores metrópoles do Brasil. Já foi nada amistosa em algum momento e, no futebol, causa certa celeuma sobre quem tem maior torcida - mesmo que Flamengo e Corinthians, a priori, não sejam exatamente inimigos. Eu, corintiano loucamente apaixonado, não entro nessa dividida: reconheço que o Flamengo tem maioria, embora a diferença não seja assim tão acachapante. O embate Rio versus São Paulo chegou a ser tema do falecido "Programa Legal", de Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Mas hoje, a diferença é muito mais peça de curiosidade e humor do que de guerra.

Por ter pai carioca, me entendo com o Rio desde sempre. Virava e mexia, em tempos passados, eu me via zoado por falar diferente. Certa vez, um pessoal da Irmandade foi a São Paulo e, mui deselegantemente, cantou uma musiquinha infame, segundo a qual “praia de paulista é o Rio Tietê”. Soube certa vez de um primo da minha mãe que viu seu carro dar problema numa quebrada do Rio. Recebeu ajuda, mas um dos rapazes disse que “só ajudou porque a placa é de Brasília. Se fosse de São Paulo, não ajudaria”. Já vi também a zomba vir do lado bandeirante. Em doses bem mais modestas.

Tudo é página virada!

Duas das minhas irmãs de coração são cariocas. Luiza é botafoguense criada na Barra e, atualmente, desfruta de Vila Isabel. Vira e mexe, pergunto pra ela se eventuais pretendentes conterrâneas suas não vão me rejeitar por ser paulista. “Bobagem! Elas gostam”, me disse certa vez, numa dessas obrigatórias conversas virtuais – que sempre começam com um “Ooooi” bem longo. Rose é uma pequena notável, a fortaleza que resiste a tudo sem perder a mais incrível das ternuras. 

O destino me brindou com uma mudança para a tal Cidade Maravilhosa. Amigos paulistas, amantes do samba, chegam a me invejar. Nesse um ano que aqui estou, fico surpreso com rasgados elogios de cariocas a minha terra natal. As rodas do samba que pulsam aqui como em nenhum lugar no mundo, também tocam Adoniran. Quem vem de lá de passagem chega até a considerar o trânsito no Rio pior que o de São Paulo.

Nem tanto, nem tanto! Aqui, infelizmente, a Terra da Garoa ainda é imbatível.

Gregório Duvivier foi um desses encantados. Foi a São Paulo gravar um filme e alugou um apartamento no Copan. Fez críticas válidas ao atual estado do Rio de Janeiro. Como bom humorista, contudo, foi hiperbólico: carregou na tinta pra causar impacto e incomodar. Conseguiu!

Causou-me espécie, no entanto, a reação raivosa dos paulistanos aos elogios. Num texto posterior a esse, detectou um prazer mórbido dessa gente por odiar a própria cidade. E o pior é que, infelizmente, isso não é quimera. 

Num vinte e cinco de janeiro, fui ao Pateo do Collegio assistir a um programa especial da CBN apresentado por Fabíola Cidral sobre a São Paulo do futuro. E a do presente parecia terra arrasada, coitada, de tão bombardeada. Um ouvinte observou: “Vocês só falam mal”. Juca Kfouri, um dos convidados, respondeu: “Falamos mal porque queremos o bem. Se desejamos uma cidade melhor para o futuro, não podemos perder de vista o olhar crítico”.

Juca tem razão. Mas, via de regra, o paulistano passa do ponto. Chega às vezes às vias da boçalidade: enfronha-se tanto nos umbrais que não enxergam os paraísos que a cidade pode oferecer. Prefere estufar o peito pra dizer que “um dia ainda vou embora dessa merda. Quero qualidade de vida” – como se “qualidade de vida” se resumisse a respirar ar puro.

Nesse particular, o carioca se sai melhor. Apesar de todos os problemas, não perde o orgulho de ser pertencer a esse lindo balneário. Mesmo que esse deslumbre em altas doses também seja prejudicial, para ele o copo está sempre meio cheio.


Desculpa, Gregório. Pode elogiar à vontade. Eu agradeço e devolvo as lisonjas, já que no Rio encontrei uma vida nova. Saber de nossos pontos fortes também ajuda a nos tornar melhores.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A semideusa

Do alto da pírâmide, enxergo a morada desta divindade
Lá se vão seis anos da primeira vez. Eu te vi de costas; teu cabelo dourado escorria ondulado qual raio de sol. E no correr da madrugada, tentamos luzir o sono por uma causa maior.

Mas você me era distante, fechada no seio da família. Eu ainda era esporádico, morava do lado de lá da estrada. E assim eu te via em conta-gotas.

Até que vim pra cá e a dose mudou de intensidade. Encontrei-te na festa e ouvi alguém dizer: “E ela continua bonita”. Falava do que via de fora; mas, da fechadura da porta, vi um lampejo de tua terna alma. Percebi que és muito mais do que isso.

Na celebração de Nossa Senhora, achei graça duas vezes. Na primeira, você precisava preparar o Altar da Mãe e, por não saber, entrou. Uma colegiada mais vivida te chamou de volta. “Não faça isso, minha filha”.

A segunda veio depois de tua consagração em novo patamar. E lá estava eu a ditar as novas diretrizes. Ávida, você puxava o livro da minha mão. Queria saber logo. E eu me dividia entre a dúvida e o riso íntimo.

Eu te admiro desde aquela primeira vez. Mas tal flor não vem sem espinhos. No mundo virtual, eu mal te vejo. Minhas mensagens não encontram eco. E isso muito me entristece. No aniversário da Libertação, nos cumprimentamos de longe. Estava magoado contigo. Tinha te feito um convite, e havia me deparado com mais uma não-resposta.

Um evento especial virou o jogo. Éramos todos cores e som. Eu pude ver de novo aquela tua habitual simpatia. Estava mais à vontade por perceber que tanta distância que eu imaginava haver não era assim tão acentuada.

Na despedida, eu te encontrei. E nos abraçamos. Nada poderia ser mais sublime. Entorpeci. E não estava mais lá. Quando voltei a mim, quis repetir a dose. E de novo senti no coração o quão bela você é.

Sensação parecida tive na na quermesse. Eu te vi aos quarenta e seis do segundo tempo e você deixou a sua morada para vir conversar comigo. Parecíamos fechados num dirigível que rodeava as estrelas. O voo durou o tempo exato para me sentir novamente acolhido.

Foi o último encontro. Vez por outra, me pego em estado periódico de saudade. Sei que a tua fortaleza é quase intransponível. Mas, nos raros momentos em que ela se abre, o mundo respira uma rara felicidade.

Seja qual for o sabor do vento, não desisto de buscar o teu horizonte. Levarei pra sempre no coração esse carinho que você me incutiu

Te adoro

sábado, 6 de setembro de 2014

Duro amadurecimento

Tenho com esse tal de perdão uma relação não muito estável. Aprendi que ele está presente em cada centímetro de nossas passadas. Não houvesse ele, tudo seria solidão.

Há quem o encare, no entanto, como a obrigação dos evoluídos. Rancor é para os “fracos”. Calma lá! É preciso enxergar a vida com mais suavidade.

Emoções como tristeza, mágoa, revolta, e até a sede de vingança, são inerentes ao ser humano. A meu modestíssimo ver, a evolução contempla a vivência de tais sentimentos para saber lidar com eles. O que não pode é esmorecer na luta para ao menos controlá-los.

Além do mais, nem toda decepção é fácil de digerir. Algumas marcas são indeléveis. Uma história minha revela isso.

Um grupo de colegas de trabalho errou feio comigo. Não mais do que de repente, uma das moças da turma resolveu pegar birra de mim. Mandava indiretas, olhava com sarcasmo, tratava mal.

Na época dos Jogos Olímpicos de Londres, quis assistir a uma prova de natação. Era a final olímpica dos 50 metros estilo livre, que Cesar Cielo disputaria. Ela e um amigo já estavam por lá quando cheguei. Os dois riram escancaradamente da minha cara. Já tinham escarnecido de mim em outra oportunidade, por outro motivo qualquer.

A convivência com ela não era nada tranquila. 

Descobrimos que uma revista de turismo traria pares de convites para visitar um parque de diversões, o Hopi Hari. O grupo combinou comprar vários exemplares para acertar uma data e ir em todo o mundo junto. Eu também adquiri o meu. Participava das conversas que combinariam o passeio. E constantemente perguntava se havia definição do grupo sobre a data.

Daí surgiu uma das maiores maldades que já se fez comigo na vida!

Certa segunda-feira, uma outra colega, que nunca era lá muito dada a discrições, disse em bom som do passeio ao Hopi Hari feito no sábado, que era o último dia da promoção. Fui vergonhosamente deixado de fora.

Tive de deixar os afazeres um pouco de lado para tentar respirar. O aperto no coração foi colossal. Voltei em silêncio e decidi cortar relações com eles. Não os acompanhei no café da manhã e por pouco não me isolei em definitivo. Um dos amigos tentou contemporizar: “Decidimos na última hora e eu perdi o número do seu telefone”. Aceitei, e voltei atrás.

O rapaz fora diplomático, mas não falara a verdade. Descobri algum tempo depois que minha exclusão foi proposital, porque a tal moça se aborreceria com a minha presença. O desejo dela foi atendido sem muita resistência.

Com o tempo, vieram novas desculpas. Um dos carros já estava cheio e, no outro, estavam as duas moças da turma. Onde eu não era benvindo. Nada que não pudesse ser contornado, se eu fosse incluído.

Também foi considerado o fato de eu estar no setor havia pouco tempo. “A gente ainda não te conhecia.” Ora, mas os amigos, namorados e namoradas que foram eram ainda menos conhecidos do que eu. Não cola!

Algum tempo depois, a tal moça, já fora da empresa, comemoraria o aniversário com os amigos. Disse que eu “podia ir”. Não, obrigado. Minha dignidade não tem preço!

Do episódio, a turma ainda encontrou motivo para rir: “Veja pelo lado bom. Você ficou mais antenado com as coisas do turismo”. No fim do ano, já morando no Rio, fui a São Paulo para uma confraternização de Natal. Aceitei sua presença, pra não perder a oportunidade de rever a turma. Quando ela chegou, a amiga "não-discreta" disse em bom-som que não havia motivo para a animosidade continuar. Afinal, o episódio "já tinha passado". 

Ainda que do fato se tenha passado algum tempo, me custa curar a ferida. Sei que guardar mágoa não é nada saudável. Mas este texto busca espantar a bruxa e retomar a minha própria verdade. Fui covarde comigo mesmo: pra não perder as amizades, forjei uma falsa resiliência e aceitei as desculpas.

Mas, não! Não passou, não! Pra quem "apanha" os acontecimentos sempre demoram mais a passar do que pra quem "bate". A postura mesquinha e mau-caráter da moça é inaceitável sob qualquer circunstância. Aumenta o incômodo o fato de ninguém ter brigado pela minha presença; de não haver o reconhecimento da mancada; de não haver pedido de desculpas. Eu ainda busco um porquê pra tudo isso.

(Justiça seja feita: dois dos então integrantes do grupo defenderam que eu fosse chamado. Mas, de fato, preferiram não bater de frente.)

Chegou a hora de praticar essa dificílima e necessária arte de perdoar. Mesmo dessa desventura hei de encontrar lições. Mesmo na decepção colhi amigos. Quase todos ainda me são queridos. 

Ainda assim, o perdão não nos obriga a ser bonzinhos com os algozes. Deixo a referida moça seguir seu rumo e desejo felicidade. Mas ela nunca será pra mim uma amiga. Certas coisas são, isso sim, irreconciliáveis.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Louco do bando

Sou um louco deste bando ensandecidamente apaixonado
Ainda me lembro do primeiro contato contigo. Era uma versão menor daquela linda camisa preta listrada. Dada pelo Licinho, meu padrinho. Eu mal sabia falar o seu nome ainda, de tão difícil que me parecia.

Na verdade, você já me havia tocado. Porque o destino escolhera a dedo o dia em que eu nasci: a maior de todas as lendas contava que tu ousavas dividir o Maracanã com os devotos da máquina tricolor. Licinho estava lá. Voltou repleto de poeira e choro. Preocuparam-se todos. O que aconteceu? “A gente se classificou”. Houve quem se aborrecesse. Quanta bobagem! Chorar por futebol? Tá louco? Só quem é entende!

Confesso que o encanto levou tempo pra fazer efeito. Mas, quando tomou conta, não havia mais volta. Aquele fatídico 87 sacramentou a tua escolha por mim. Que sufoco! Éramos os piores do Paulista. Mas, num trabalho de Formiga, fomos nos reerguendo.

É como diz uma certa máxima: se deixar o gigante chegar, sai de baixo. Na semifinal, levantou poeira sobre os santistas num contundente 5 a 1. Pra sacramentar uma improvável final contra o São Paulo.

No dia do jogo final, eu estava em rápida viagem; no carro, muitos familiares. Lá por umas tantas, alguém resolveu perguntar pra quem cada um iria torcer. Marcia, minha mãe, Sonia, a madrinha, e Bruno, meu irmão, eram tricolores de carteirinha. O palmeirense Tadeu, motorista do carro, também torceria pelo São Paulo. Estavam quase todos contra mim. Eu só escapei da solidão porque meu pai, neutro, escolheu o Corinthians. Era a tradução do insuportável “contra tudo e contra todos”.

Do lado de lá do rádio, a história era contada por José Silvério. Os tricolores venceram o primeiro jogo por 2 a 1, e tinham a vantagem do empate. Na prorrogação, o Mauro chegou a carimbar o travessão. Não teve jeito: eles levaram a melhor e eu chorei – infelizes, meus pais se aborreceram. Quanta bobagem. Não sabe perder? Pelo amor de Deus. Só quem é entende!

No ano seguinte, nova final. Muitos reclamaram daquele gol impedido do Biro-Biro contra o São Paulo. E não é que o Palmeiras resolveu dar uma mãozinha? Venceu os tricolores e nos classificou. Do lado de lá, o excelente time do Guarani despachava o São José. E, com Neto e Evair, respiravam boa dose de favoritismo.

Estávamos na casa do são-paulino Edson Luis. “Hoje vou ver o Corinthians perder”. Já começava a me acostumar com tamanha animosidade. Era todo o mundo vestido com o manto verde do Bugre. Pra piorar, o Neto tinha engatado uma bicicleta no jogo do Morumbi. Empatamos depois, mas tínhamos uma missão bastante complicada: vencer, fora de casa, um time considerado melhor.

Dificuldade; tensão; igualdade; prorrogação. Sucumbiríamos mais uma vez? Até que Wilson Mano arrisca da entrada da área. Sergio Néri tenta tirar com os olhos. Luis Alfredo exulta: Gol do garoto Viola. O jovem centroavante corrigira a trajetória e selara a vitória. E eu deixei fluir uma emoção que nem mesmo sabia de onde chegara. Até quem é às vezes não entende.

Era só a primeira de tantas, que valem novas histórias. Eu e meus quase quarenta estou contido de leve nos teus cento e quatro. E muito feliz por isso, agradeço pela escolha.

Obrigado, Corinthians!

PS: Licinho e Edson Luis já não estão mais entre nós. Mas vivem. Tenho certeza disso! Fiquem com Deus.

domingo, 24 de agosto de 2014

Não sou "xarope"

De férias em São Paulo, fui almoçar com a "Vagabanda", um grupo de ex-colegas de labuta. Como fosse quarta, acreditei que iríamos de feijoada no restaurante da Dorinha, a moça bonita do caixa. Eles preferiram mudar de rumo, e eu acatei.

Após as despedidas, fui dar um alô pra moça. Bati um papo rápido e comprei dois beijinhos. Dei um pra ela, que corou. Beijei-lhe a mão e fui embora. 

Dorinha é vênus de tão linda. E não, não sou santo: já a desejei, sim. Naquele gesto em especial, no entanto,  não havia nenhum sentido de conquista. Quando ela te chama de "amiguinho" e as religiões não batem (ela é evangélica da Igreja Universal e eu, sacerdote de um templo espiritualista) o jogo está posto e não há sequer vestígio de chance. Quis apenas ofertar uma pétala de gentileza a quem, além de bela, é também um poço de simpatia.

Dias depois, o grupo no WhatsApp bombou. Mais escrachada do que o Casseta e Planeta, a "Vagabanda" deu pela história e mudou o nome do grupo para “Pena que tu não me amas” – uma brincadeira que eu fiz num post dela no Facebook.

Começou a escarnecer de um certo “brigadeiro”, e eu entrei na conversa por ter reconhecido a frase. Por linhas tortas, Diego me diz que Dorinha perguntara de mim. Roberta me chama de “xarope”, porque tinha dado a ela um doce de seu próprio restaurante.

(E eu pergunto: qual é o problema? Mesmo que eu entrasse no jogo, isso seria até um ponto a favor, porque eu a surpreendi.)

Houve um tempo em minha vida em que, desprovido de autoestima, obedeci a convenções, muitas delas idiotas. Nesse destrutivo processo, aceitei inúmeras opiniões alheias e rejeitei a minha própria verdade. Tais quimeras viraram depois desilusão, pois muitos dos arautos eram não mais do que protótipos malfeitos de sabedoria.

Ainda que eu entrasse no jogo, poderia sim aceitar conselhos. Mas mesclar com eles o que eu tenho a oferecer.