Tenho com esse tal
de perdão uma relação não muito estável. Aprendi que ele está
presente em cada centímetro de nossas passadas. Não houvesse ele,
tudo seria solidão.
Há
quem o encare, no entanto, como a obrigação dos evoluídos. Rancor
é para os “fracos”. Calma lá! É preciso enxergar a vida com mais suavidade.
Emoções
como tristeza, mágoa, revolta, e até a sede de vingança, são
inerentes ao ser humano. A meu modestíssimo ver, a evolução contempla a vivência de tais sentimentos para saber lidar com eles. O que não pode é esmorecer
na luta para ao menos controlá-los.
Além
do mais, nem toda decepção é fácil de digerir. Algumas marcas são
indeléveis. Uma história minha revela isso.
Um
grupo de colegas de trabalho errou feio comigo. Não mais do que de
repente, uma das moças da turma resolveu pegar birra de mim. Mandava
indiretas, olhava com sarcasmo, tratava mal.
Na
época dos Jogos Olímpicos de Londres, quis assistir a uma prova de
natação. Era a final olímpica dos 50 metros estilo livre, que
Cesar Cielo disputaria. Ela e um amigo já estavam por lá quando
cheguei. Os dois riram escancaradamente da minha cara. Já tinham
escarnecido de mim em outra oportunidade, por outro motivo qualquer.
A convivência com ela não era nada tranquila.
Descobrimos
que uma revista de turismo traria pares de convites para visitar um
parque de diversões, o Hopi Hari. O grupo combinou comprar vários
exemplares para acertar uma data e ir em todo o mundo junto. Eu também adquiri o meu. Participava das conversas que combinariam o passeio. E constantemente perguntava se havia definição do grupo sobre a data.
Daí surgiu uma das maiores maldades que já se fez comigo na vida!
Certa segunda-feira, uma outra colega, que nunca era lá muito
dada a discrições, disse em bom som do passeio ao Hopi Hari feito
no sábado, que era o último dia da promoção. Fui vergonhosamente deixado de fora.
Tive
de deixar os afazeres um pouco de lado para tentar respirar. O aperto
no coração foi colossal. Voltei em silêncio e decidi cortar
relações com eles. Não os acompanhei no café da manhã e por
pouco não me isolei em definitivo. Um dos amigos tentou
contemporizar: “Decidimos na última hora e eu perdi o número do
seu telefone”. Aceitei, e voltei atrás.
O rapaz fora diplomático, mas não falara a verdade. Descobri algum tempo depois que minha exclusão foi
proposital, porque a tal moça se aborreceria com a minha presença.
O desejo dela foi atendido sem muita resistência.
Com
o tempo, vieram novas desculpas. Um dos carros já estava cheio e, no
outro, estavam as duas moças da turma. Onde eu não era benvindo.
Nada que não pudesse ser contornado, se eu fosse incluído.
Também
foi considerado o fato de eu estar no setor havia pouco tempo. “A
gente ainda não te conhecia.” Ora, mas os amigos, namorados e
namoradas que foram eram ainda menos conhecidos do que eu. Não cola!
Algum
tempo depois, a tal moça, já fora da empresa, comemoraria o
aniversário com os amigos. Disse que eu “podia ir”. Não,
obrigado. Minha dignidade não tem preço!
Do
episódio, a turma ainda encontrou motivo para rir: “Veja pelo lado
bom. Você ficou mais antenado com as coisas do turismo”. No fim do ano, já morando no Rio, fui a São Paulo para uma confraternização de Natal. Aceitei sua presença, pra não perder a oportunidade de rever a turma. Quando ela chegou, a amiga "não-discreta" disse em bom-som que não havia motivo para a animosidade continuar. Afinal, o episódio "já tinha passado".
Ainda
que do fato se tenha passado algum tempo, me custa curar a ferida.
Sei que guardar mágoa não é nada saudável. Mas este
texto busca espantar a bruxa e retomar a minha própria verdade. Fui
covarde comigo mesmo: pra não perder as amizades, forjei uma falsa resiliência e aceitei as desculpas.
Mas, não! Não passou, não! Pra quem "apanha" os acontecimentos sempre demoram mais a passar do que pra quem "bate". A postura mesquinha e mau-caráter da moça é inaceitável sob
qualquer circunstância. Aumenta o incômodo o fato de ninguém ter
brigado pela minha presença; de não haver o reconhecimento da
mancada; de não haver pedido de desculpas. Eu ainda busco um porquê pra tudo isso.
(Justiça seja feita: dois dos então integrantes do grupo defenderam que eu fosse chamado. Mas, de fato, preferiram não bater de frente.)
Chegou
a hora de praticar essa dificílima e necessária arte de perdoar.
Mesmo dessa desventura hei de encontrar lições. Mesmo na decepção
colhi amigos. Quase todos ainda me são queridos.
Ainda assim, o perdão não nos obriga a ser bonzinhos
com os algozes. Deixo a referida moça seguir seu rumo e desejo felicidade. Mas ela nunca
será pra mim uma amiga. Certas coisas são, isso sim,
irreconciliáveis.