terça-feira, 16 de setembro de 2014

Desculpa, Gregório

Breve vista do Centro de São Paulo. O coração da Terra
da Garoa pode sim ser belo
O signo da rivalidade ainda pontua as duas maiores metrópoles do Brasil. Já foi nada amistosa em algum momento e, no futebol, causa certa celeuma sobre quem tem maior torcida - mesmo que Flamengo e Corinthians, a priori, não sejam exatamente inimigos. Eu, corintiano loucamente apaixonado, não entro nessa dividida: reconheço que o Flamengo tem maioria, embora a diferença não seja assim tão acachapante. O embate Rio versus São Paulo chegou a ser tema do falecido "Programa Legal", de Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Mas hoje, a diferença é muito mais peça de curiosidade e humor do que de guerra.

Por ter pai carioca, me entendo com o Rio desde sempre. Virava e mexia, em tempos passados, eu me via zoado por falar diferente. Certa vez, um pessoal da Irmandade foi a São Paulo e, mui deselegantemente, cantou uma musiquinha infame, segundo a qual “praia de paulista é o Rio Tietê”. Soube certa vez de um primo da minha mãe que viu seu carro dar problema numa quebrada do Rio. Recebeu ajuda, mas um dos rapazes disse que “só ajudou porque a placa é de Brasília. Se fosse de São Paulo, não ajudaria”. Já vi também a zomba vir do lado bandeirante. Em doses bem mais modestas.

Tudo é página virada!

Duas das minhas irmãs de coração são cariocas. Luiza é botafoguense criada na Barra e, atualmente, desfruta de Vila Isabel. Vira e mexe, pergunto pra ela se eventuais pretendentes conterrâneas suas não vão me rejeitar por ser paulista. “Bobagem! Elas gostam”, me disse certa vez, numa dessas obrigatórias conversas virtuais – que sempre começam com um “Ooooi” bem longo. Rose é uma pequena notável, a fortaleza que resiste a tudo sem perder a mais incrível das ternuras. 

O destino me brindou com uma mudança para a tal Cidade Maravilhosa. Amigos paulistas, amantes do samba, chegam a me invejar. Nesse um ano que aqui estou, fico surpreso com rasgados elogios de cariocas a minha terra natal. As rodas do samba que pulsam aqui como em nenhum lugar no mundo, também tocam Adoniran. Quem vem de lá de passagem chega até a considerar o trânsito no Rio pior que o de São Paulo.

Nem tanto, nem tanto! Aqui, infelizmente, a Terra da Garoa ainda é imbatível.

Gregório Duvivier foi um desses encantados. Foi a São Paulo gravar um filme e alugou um apartamento no Copan. Fez críticas válidas ao atual estado do Rio de Janeiro. Como bom humorista, contudo, foi hiperbólico: carregou na tinta pra causar impacto e incomodar. Conseguiu!

Causou-me espécie, no entanto, a reação raivosa dos paulistanos aos elogios. Num texto posterior a esse, detectou um prazer mórbido dessa gente por odiar a própria cidade. E o pior é que, infelizmente, isso não é quimera. 

Num vinte e cinco de janeiro, fui ao Pateo do Collegio assistir a um programa especial da CBN apresentado por Fabíola Cidral sobre a São Paulo do futuro. E a do presente parecia terra arrasada, coitada, de tão bombardeada. Um ouvinte observou: “Vocês só falam mal”. Juca Kfouri, um dos convidados, respondeu: “Falamos mal porque queremos o bem. Se desejamos uma cidade melhor para o futuro, não podemos perder de vista o olhar crítico”.

Juca tem razão. Mas, via de regra, o paulistano passa do ponto. Chega às vezes às vias da boçalidade: enfronha-se tanto nos umbrais que não enxergam os paraísos que a cidade pode oferecer. Prefere estufar o peito pra dizer que “um dia ainda vou embora dessa merda. Quero qualidade de vida” – como se “qualidade de vida” se resumisse a respirar ar puro.

Nesse particular, o carioca se sai melhor. Apesar de todos os problemas, não perde o orgulho de ser pertencer a esse lindo balneário. Mesmo que esse deslumbre em altas doses também seja prejudicial, para ele o copo está sempre meio cheio.


Desculpa, Gregório. Pode elogiar à vontade. Eu agradeço e devolvo as lisonjas, já que no Rio encontrei uma vida nova. Saber de nossos pontos fortes também ajuda a nos tornar melhores.

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