sábado, 25 de outubro de 2014

O último romântico

Nas coisas do coração, não sei jogar. Sou o que chamam de romântico incorrigível.

Houve um tempo de muito acanhamento; fantasiava, e quebrava a cada desilusão. Passei tanto tempo assim que, quando minimizei o fantasma, perdi todo o tempo de aprender os passos.

Assim, ainda preciso tirar a poeira do acanhamento da infância no presente. Se me chamam de tímido, me sinto insultado.

E, sim, é um ultraje!

Se fosse, não faria palestra, me esconderia do público e não conseguiria desempenhar bem o meu papel de locutor. É certo que alguma insegurança ainda me assombra, mas nada que me impeça de seguir.

Se a vida ensinou que de algum jeito é preciso arriscar, prefiro não seguir um script. Incuto tópicos dos gurus, mas não me prendo a técnicas. Se o fizer, me enrolo. E tudo vira desastre.

Deixa que o vento determine a direção da nau. Que os olhos e o rosto digam os passos a seguir. E o coração faça o desfecho que puder.

Que posso fazer? Esse sou eu; incipiente em estratégia e repleto de sentimento. Presenteio, digo palavras doces e aceno saudade. E, dizem, isso atrapalha, porque pula uma etapa.

Enamorei-me certa vez de uma pequena de um trampo anterior. Era cheia de sorriso e insinuava doçura. Acabei por me perder. Dei-lhe uma prova do quanto a apreciava, e ela agradeceu surpresa.

Investi. E me dei mal, muito mal. Porque aquela doçura era só aparência. Ela não deixou pedra sobre pedra. Disse estar em outro lance, e curtia muito. Não tava afim de problemas. Dei um tempo e cometi a burrada de tentar de novo. Estava tão empolgado que era até alvo de gozações que às vezes ultrapassavam todos os limites.

Até que um dia ela trocaria de emprego. Dou parabéns e lhe peço o telefone, para não perder contato. A resposta vem sem medo de ser deselegante. “Você já me tem no Facebook.  Acho que já está bom, não é?”

Pela segunda vez me era cruel. Não valia a pena prosseguir. Como disse um grande amigo: “Página virada”.

Era o fim melancólico de mais um capítulo de desilusão. Lembro que, certa vez, mudo a direção e vou almoçar com a turma dela, pra me reaproximar. Não quis enxergar o profundo incômodo que ela sentia. Tanto é que, na segunda vez, o setor se dividiu, e ela foi por uma turma diversa pra me evitar.

Recordo desse lance sem incômodo. Se não dá pra agradar a todos, azar. Fio-me em quem realmente gosta de mim.

Uma reflexão se faz necessária. Se desapareço aos olhos delas, é porque talvez as desconheça. Dou um pouco de mim a quem provavelmente vai desaparecer. Entristeço, mas não arrependo. Porque me venci, e não me escondi.


Se preciso for rever conceitos, respiro e incuto novas mentes. Mas não me peça ninguém para transformar-me no que não sou.

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