quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma torrente de decepções

Nem sempre é possível manter o astral lá em cima. De vez em quando, somos abatidos por alguns momentos de tristeza. E esse ano nada me desencantou mais do que o esporte.

Nada se compara à imensa melancolia que experimentei depois daquele fatídico sete a um.

Lembrei-me da paixão que aprendi a nutrir por aquela camisa amarela ainda aos seis anos. A mágica orquestra de Telê jogava por sinfonia, e um desafino “azzurreal” pôs tudo a perder. Ainda assim, deixou uma página bonita na nossa história.

No Mineirão, a atonia não se limitou aos “jogadores”. Revelou também a extrema pobreza presente de uma armada deitada em berço esplêndido nas glórias passadas.

Levei uns quinze dias pra me recuperar totalmente de tamanha vergonha. E achei que nada poderia ser pior do que aquilo.

Outras decepções se sucederam.

O basquete masculino fazia um papel digno: chegou a me encher de orgulho quando bateu com autoridade na Argentina. Jogou tudo pelo ralo numa pane elétrica contra a Sérvia. Era uma versão ampliada do sete a um.

Nem mesmo o vôlei, minimamente organizado por aqui, escapou de deixar lá a sua contribuição. O masculino trouxe da Polônia um honrado vice-campeonato, mas o feminino, bicampeão olímpico, ressuscitou os fantasmas de Atenas e do Japão. O inexperiente escrete ianque comandado pelo espetacular Karch Kiraly impôs o respeito que um três a zero merece.

Mas quem chora de fato é a alma alvinegra. Porque a chama que a faz amar aos poucos se apaga.

No Campeonato Brasileiro, vive a síndrome do Robin Hood: vence os grandes e sucumbe diante dos pequenos. Quando eu pensei que a Copa do Brasil poderia ser um alento, vem o Mineirão e me impõe outra tragédia.

O confortável dois a zero inicial poderia dar a tranquilidade necessária para um jogo de volta que anunciava uma blitze do vingador em busca da virada. E logo de saída, Guerrero balança a rede atleticana. Parecia que tudo caminharia bem. Confiava na maturidade daquele onze para suportar a pressão que viria dali pra diante.

Mas o Galo valente virou o jogo já no primeiro tempo. Desacreditei do pior. Prometi que, se acontecesse, abandonaria o fanatismo e só voltaria no ano que vem.

O dia exaustivo e um princípio de gripe me fizeram balear mais cedo do que o habitual. Não deu pra ver o descerrar das cortinas. Mas confiava na classificação.

Calor, nariz cheio e garganta a arrastar. Óbvio que não durmo direito. Corro à internet pra saber o que se sucedeu. Tragédia!

Sinto a habitual trovoada dos revoltados. Praguejo contra mano e seus “manos”, Gobbi e sua incompetência e todos os “santos” envolvidos. Não reconheci mais aquele gigante cuja história aprendi a amar. Parece-me desfocado ante tanta mesura. Empolado entre palácios e copas, parecia navegar em águas diferenciadas. Mas tantos torcedores desolados já identificam o fenecimento daquela alma guerreira. Evocando Zé Geraldo, no palácio o operário não pode entrar. Logo ele, que escreveu todos os capítulos essenciais dessa história.

Na sequência do mineirazzo, toda a pose se perdeu. O Galo veio mais vingador do que nunca e contruiu a sua antologia. Às custas de uma camisa que não soube sustentar a própria grandeza. Esperava, ao menos, a maturidade de jogar pelo resultado. Sobrou do Mineirão a centelha do vexame do oito de julho.


O coração alvinegro, tão surrado, pede um tempo pra respirar. Por ora, cumpre a promessa e se recusa a sofrer. Como diz o outro, agora, só amanhã. 

Feliz Ano-Novo!

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