domingo, 26 de outubro de 2014

Até breve

Doloroso, mas necessário.

Era uma mulher linda e simpática, por quem eu aprendi a nutrir muito carinho. Tinha uma queda por ela desde a primeira vez.

Até que certo dia nos abraçamos. Aquilo foi tão forte que quis repetir. Como ela mora a uns bons quilômetros de mim, quis vencer a distância e investir numa conquista. Mesmo sabendo que não seria nada fácil.

Numa festa, eu a revi. Veio conversar comigo. O papo durou meia hora, e valeu por uma eternidade.

Dia desses, escrevi um texto em sua homenagem e joguei no ar. Era cheio de entrelinhas, porque não queria expor ninguém. Mandei pra ela.

Gostou e elogiou. Não percebeu!

Já fazia meses que não a via. No reencontro, me recebeu com certa secura. Desanuviou depois, mas aquilo me entristeceu um pouco.

Respirei fundo e procurei me vencer e desenhar tudo. Aproveitei o melhor momento:

“Aquela era você”.

Sorriu e tentou rememorar trechos. Mas ainda assim evitou mergulhar fundo.

Por essas e outras que devo concluir que faltou conexão. E a pá de cal foi ela ter vindo cá pra perto e não dar sequer um sinal.

Quis ao menos ter a oportunidade de conversar. Conhecê-la. E que o tal “acaso” decidisse o que aconteceria. Mas a energia deve ser despendida com quem se interessa por mim. Convidei pra almoçar e pedi o telefone. Fui ignorado nas duas vezes.

Então, basta! Cansei de ser desprezado. Digam ao povo que não, não fico! Abro mão de tua beleza, mas nunca do meu amor-próprio. Sei que tenho valor e vou em busca de quem realmente goste de mim.

sábado, 25 de outubro de 2014

O último romântico

Nas coisas do coração, não sei jogar. Sou o que chamam de romântico incorrigível.

Houve um tempo de muito acanhamento; fantasiava, e quebrava a cada desilusão. Passei tanto tempo assim que, quando minimizei o fantasma, perdi todo o tempo de aprender os passos.

Assim, ainda preciso tirar a poeira do acanhamento da infância no presente. Se me chamam de tímido, me sinto insultado.

E, sim, é um ultraje!

Se fosse, não faria palestra, me esconderia do público e não conseguiria desempenhar bem o meu papel de locutor. É certo que alguma insegurança ainda me assombra, mas nada que me impeça de seguir.

Se a vida ensinou que de algum jeito é preciso arriscar, prefiro não seguir um script. Incuto tópicos dos gurus, mas não me prendo a técnicas. Se o fizer, me enrolo. E tudo vira desastre.

Deixa que o vento determine a direção da nau. Que os olhos e o rosto digam os passos a seguir. E o coração faça o desfecho que puder.

Que posso fazer? Esse sou eu; incipiente em estratégia e repleto de sentimento. Presenteio, digo palavras doces e aceno saudade. E, dizem, isso atrapalha, porque pula uma etapa.

Enamorei-me certa vez de uma pequena de um trampo anterior. Era cheia de sorriso e insinuava doçura. Acabei por me perder. Dei-lhe uma prova do quanto a apreciava, e ela agradeceu surpresa.

Investi. E me dei mal, muito mal. Porque aquela doçura era só aparência. Ela não deixou pedra sobre pedra. Disse estar em outro lance, e curtia muito. Não tava afim de problemas. Dei um tempo e cometi a burrada de tentar de novo. Estava tão empolgado que era até alvo de gozações que às vezes ultrapassavam todos os limites.

Até que um dia ela trocaria de emprego. Dou parabéns e lhe peço o telefone, para não perder contato. A resposta vem sem medo de ser deselegante. “Você já me tem no Facebook.  Acho que já está bom, não é?”

Pela segunda vez me era cruel. Não valia a pena prosseguir. Como disse um grande amigo: “Página virada”.

Era o fim melancólico de mais um capítulo de desilusão. Lembro que, certa vez, mudo a direção e vou almoçar com a turma dela, pra me reaproximar. Não quis enxergar o profundo incômodo que ela sentia. Tanto é que, na segunda vez, o setor se dividiu, e ela foi por uma turma diversa pra me evitar.

Recordo desse lance sem incômodo. Se não dá pra agradar a todos, azar. Fio-me em quem realmente gosta de mim.

Uma reflexão se faz necessária. Se desapareço aos olhos delas, é porque talvez as desconheça. Dou um pouco de mim a quem provavelmente vai desaparecer. Entristeço, mas não arrependo. Porque me venci, e não me escondi.


Se preciso for rever conceitos, respiro e incuto novas mentes. Mas não me peça ninguém para transformar-me no que não sou.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma torrente de decepções

Nem sempre é possível manter o astral lá em cima. De vez em quando, somos abatidos por alguns momentos de tristeza. E esse ano nada me desencantou mais do que o esporte.

Nada se compara à imensa melancolia que experimentei depois daquele fatídico sete a um.

Lembrei-me da paixão que aprendi a nutrir por aquela camisa amarela ainda aos seis anos. A mágica orquestra de Telê jogava por sinfonia, e um desafino “azzurreal” pôs tudo a perder. Ainda assim, deixou uma página bonita na nossa história.

No Mineirão, a atonia não se limitou aos “jogadores”. Revelou também a extrema pobreza presente de uma armada deitada em berço esplêndido nas glórias passadas.

Levei uns quinze dias pra me recuperar totalmente de tamanha vergonha. E achei que nada poderia ser pior do que aquilo.

Outras decepções se sucederam.

O basquete masculino fazia um papel digno: chegou a me encher de orgulho quando bateu com autoridade na Argentina. Jogou tudo pelo ralo numa pane elétrica contra a Sérvia. Era uma versão ampliada do sete a um.

Nem mesmo o vôlei, minimamente organizado por aqui, escapou de deixar lá a sua contribuição. O masculino trouxe da Polônia um honrado vice-campeonato, mas o feminino, bicampeão olímpico, ressuscitou os fantasmas de Atenas e do Japão. O inexperiente escrete ianque comandado pelo espetacular Karch Kiraly impôs o respeito que um três a zero merece.

Mas quem chora de fato é a alma alvinegra. Porque a chama que a faz amar aos poucos se apaga.

No Campeonato Brasileiro, vive a síndrome do Robin Hood: vence os grandes e sucumbe diante dos pequenos. Quando eu pensei que a Copa do Brasil poderia ser um alento, vem o Mineirão e me impõe outra tragédia.

O confortável dois a zero inicial poderia dar a tranquilidade necessária para um jogo de volta que anunciava uma blitze do vingador em busca da virada. E logo de saída, Guerrero balança a rede atleticana. Parecia que tudo caminharia bem. Confiava na maturidade daquele onze para suportar a pressão que viria dali pra diante.

Mas o Galo valente virou o jogo já no primeiro tempo. Desacreditei do pior. Prometi que, se acontecesse, abandonaria o fanatismo e só voltaria no ano que vem.

O dia exaustivo e um princípio de gripe me fizeram balear mais cedo do que o habitual. Não deu pra ver o descerrar das cortinas. Mas confiava na classificação.

Calor, nariz cheio e garganta a arrastar. Óbvio que não durmo direito. Corro à internet pra saber o que se sucedeu. Tragédia!

Sinto a habitual trovoada dos revoltados. Praguejo contra mano e seus “manos”, Gobbi e sua incompetência e todos os “santos” envolvidos. Não reconheci mais aquele gigante cuja história aprendi a amar. Parece-me desfocado ante tanta mesura. Empolado entre palácios e copas, parecia navegar em águas diferenciadas. Mas tantos torcedores desolados já identificam o fenecimento daquela alma guerreira. Evocando Zé Geraldo, no palácio o operário não pode entrar. Logo ele, que escreveu todos os capítulos essenciais dessa história.

Na sequência do mineirazzo, toda a pose se perdeu. O Galo veio mais vingador do que nunca e contruiu a sua antologia. Às custas de uma camisa que não soube sustentar a própria grandeza. Esperava, ao menos, a maturidade de jogar pelo resultado. Sobrou do Mineirão a centelha do vexame do oito de julho.


O coração alvinegro, tão surrado, pede um tempo pra respirar. Por ora, cumpre a promessa e se recusa a sofrer. Como diz o outro, agora, só amanhã. 

Feliz Ano-Novo!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A palhaça do Shopping Light

Como já disse certa vez, vim à vida para não exacerbar o bom humor. Por natureza, me porto com seriedade e não aprovo alguns arroubos.

Dia desses estou no Shopping Light, aquele da Praça Ramos de Azevedo, em vias de pagar uma conta telefônica. Passo na loja e imprimo uma nova via da fatura. O atendente me recomenda pagá-la na agência lotérica do andar de baixo.

Enfrento a fila e me deparo com uma situação peculiar. A caixa, cuja voz se ouve a certa distância, faz graça:

- Obrigado por esse lindo papel que vou ter de digitar - era decantada ironia. Não deu pra saber se no tom de brincadeira havia uma rusga de escárnio. Não havia laser, então deveria inserir à mão o código de barra. E que culpa eu tinha nisso?

Esperei até que ela concluísse a operação. Falou um valor diferente, e eu, querendo responder à suposta simpatia, peço pra ela não me assustar. Completo a minha parte no acordo. 

- O senhor não tem saldo suficiente.

Levo um susto e entro em momento de pânico. Era começo de mês e estava tudo em ordem. Será que minha conta foi clonada? Ou houve alguma despesa a mais que eu por ventura não tivesse me lembrado?

Nada! A moça fez troça de mim. Disse que estava "tudo certo". Saí de lá sem sorrir.

É óbvio que não gostei. Foi deselegante e de extremo mau gosto. Principalmente porque não me conhecia e, portanto, não tinha liberdade para tal. 

A palhaça fez tudo errado. Antes de brincar, poderia ter dado um tudo bem. Poderia me deixar mais leve. Ainda assim, fiz um esforço pra permanecer agradável. Mas o indecente trote do saldo na conta ultrapassou todos os limites do aceitável. Deixei a loja bastante contrariado.

Não sou nenhum ranzinza, mas não gosto de gracinhas desse tipo. Existe uma linha tênue entre a brincadeira sadia e o sarcasmo desnecessário.