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| Paulo de Tarso; o disseminador do Cristianismo dá nome e identidade a São Paulo |
No dia em que
te deixei, recolhi uma centelha pra querer-te em meu coração. Como o futuro
exigisse, parti. Mas a alma queria ficar.
Cresci no
lugar onde o rio se derrama. Rebouças, Teodoro, Fradique e Pedroso se tornaram
conhecidos de longa data. Mas é Madalena que me dá saudade. A professora
repleta de sabedoria e harmonia. Dizem que era filha do fazendeiro dono
daquelas plagas. Suas irmãs, Ida e Beatriz, preferem a discrição. Deixam Madalena
brilhar. E como brilha! Com alegria um dia me mostrou alegoria: anel de luzente
Pérola Negra.
Santa
Batucada! Sai da São João, segue Tiradentes afora e chega à casa de Otelo. A
chuva castigou aquele carnaval. Os herdeiros de Pirapora não pipocaram. Nenê,
vai-vai à luta; bota uma rosa de ouro na lapela daquela camisa verde e branco e
trilha a tua mocidade alegre. Que Leandro e Miguel peruchearam e aclimação é
primeira em sua arte barroca. E a passarela também se deixa pisar por gafanhoto
e gavião. O trem saiu às onze horas; contente, fui embora amanhã de manhã.
E o samba deu
na capa da Gazeta. Como não recordar a Paulista de todas as horas, onde a
direção de minha vida se firmou? Onde tua arte pulsa mais forte: um paraíso de
eterna bela vista, em que imagens de grafite invadem o palco e nos contracenam.
E Augusta? Quanto fascínio! Dorme nos jardins e acorda nos arrabaldes rumo ao
centro.
A “cidade” da
cidade mereceria um capítulo especial. Dona Consolação nos deságua pra tomar um
chá na casa de Ramos de Azevedo. Ali jaz orgulhoso um passado de luta: na linda
Sé foram gestadas as Diretas Já; e no vale onde corre o rio de mau espírito,
elas se consolidaram.
E por falar em história, ela se revela no tempo em que a cidade se rebela. Corria o Trinta e Dois quando os paulistas enfrentaram Vargas. Ainda que derrotada, não esquece a empreitada. Nove de Julho e Vinte e Três de Maio são fagulhas. Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, mártires,
E por falar em história, ela se revela no tempo em que a cidade se rebela. Corria o Trinta e Dois quando os paulistas enfrentaram Vargas. Ainda que derrotada, não esquece a empreitada. Nove de Julho e Vinte e Três de Maio são fagulhas. Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, mártires,
Do Marco Zero
sigo saudoso para a gênese: no Collegio a história começou. Ali o propagador do
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| A cidade revela o tempo em que se rebela. Vinte e Três de Maio é só um entre tantos marcos de trinta e dois. Enquanto isso, o presidente Vargas nem aparece. |
cristianismo marcou-se infinito na identidade de sua gente: Paulo! Paulista!
Paulistano! A inquietude desse ser assusta os incautos irmãos de outras terras.
É preciso fazer ir ao mundo como se o dia comportasse um mês. E sua percepção
crítica, tão necessária, às vezes transborda: quero qualidade de vida!
Lá também se
encravam lembranças. Minha mãe trabalhava onde a luz incide mais forte. De
frente pro parque e de costas pra “zépa”. Naquele pedaço nasceu inesquecível
amor. Sob lampião e bênçãos de Jorge, operários foram o destino de uma ideia
que partiu da Grécia e passou por Bretanha. Corinto; Corinthian; Corinthians!
Ê Nação
alvinegra de tanta antologia. Fez casa do Paulo Machado e lá escreveu tantos
capítulos. Num deles, derrotamos o Flamengo de um já envelhecido Galinho.
Precisávamos tirar uma diferença de dois a zero, e chegamos aos quatro a um
necessários. Mas Leovegildo achou um contra-ataque e nos desclassificou no descerrar das cortinas.
A água
derramada de pierê fez foz na terra dura de Butantã. Sob as asas de Corifeu moravam
meus avós. Mara vestia-se de zelo: nunca faltava no momento de aperto. Dito era
todo generosidade – de riso, doces e guaranás. A filha tornou a casa. Herdeira de Dito, mima a neta em
paz - e é pela pequena que tanto volto. E da janela vejo a universidade, onde tantas vezes meu pai nos levou para brincar.
Mas o velho veio d'além Dutra. Vivo a terra encantadora em busca de novos referenciais. Ela vence a luta do
rochedo com o mar e resplandece, apesar de tanto padecer. Jesus abraça a Guanabara e me apresenta a sua
mãe, que me recebe de braços abertos. Agradeço e aprecio, meu queridíssimo Rio.
A essência, no entanto, será sempre paulistana. Quando te
deixei, recolhi uma centelha pra plantar-te em mim. Nunca parti. A alma te ama
eternamente.




