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| O ótimo Arruda comandou o auê. Ê, vida boa... (crédito da foto: www.ingresso.com) |
Voltei ao Méier depois de uma semana. O "adeus" anterior não dizia respeito ao bairro em si, mas a outra situação.
Fui prestigiar a roda de samba do Grupo Arruda. Foi o meu amigo Marcelo Faria, fanático torcedor da Beija-Flor e um dos artífices do ótimo site Sambrasil, que me chamou pro batuque.
A roda reinava sublime no palco do Imperator. A trupe que comandava a festa surgiu em 2005 próximo à banca da Tia Zezé, próximo ao viaduto da Mangueira. Na base da raça, os cinco amigos de Vila Isabel driblavam a fragilidade da estrutura e os constantes "paus" do equipamento de som. Precisava espantar a "zica" com galhos de arruda, e a erva virou identidade. O João Nogueira foi só mais um ponto de parada dessa trajetória.
Às oito e meia em ponto, começava o auê. Não poderia deixar de sorrir nas simpáticas referências a Vanzolini a Adoniran, os ícones da minha terra. Seus clássicos cantavam coisas que já vivi e ainda vejo. Já me vi em vias de "perder o trem" e tirar o sossego da minha mãe, que, de fato, "não dorme enquanto eu não chegar". Também estou num momento de "reconhecer a queda, levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima".
E eles receberiam altas patentes do samba. Não pude ver Jorgynho China, porque não poderia ficar até além das onze. A volta me preocupava. Mas tive a honra de reverenciar mestre Monarco de Portela. É impressionante como o homem consegue ao mesmo tempo exalar majestade e simplicidade. Cheio de simpatia, o menino brincou com o avançar dos anos. O mestre reconheceu que a voz estava claudicante. Mas ainda assim, deu um caldo pra lá de delicioso. Carregava o seu Hildemar Diniz não só a sua gloriosa história de mais de oito décadas, mas a poeira divinal da águia de Madureira. Assim, tudo valeu a pena.
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Generosidade carioca
No intervalo, precisei puxar o bonde. A vinda tinha sido meio acidentada, num ônibus em que as pessoas se abaixavam com medo de alguns espocares, que pareciam tiros. Já escaldado por um já longínquo encontro com um o terror, achei melhor me precaver e sair antes.
Tomei um ônibus que margearia a Tijuca e desembocaria no Novo Rio. Decidi não descer na Praça Saens Peña e seguir. Foi um erro! Acabei descendo na Leopoldina.
Cruzei a passarela e vi o Cosme Velho passar. Corri e não alcancei. Aí, pareceu que o céu conspirou a favor. O motorista do ônibus de trás parou e disse:
"Vem, que a gente alcança ele e você pega lá na frente"
Hesitei, mas aceitei a carona. No começo da Presidente Vargas, o bom homem parou na frente dele e eu pude chegar sossegado.
Roda de samba secular e jeitinho do bem. Existem coisas que só o Rio faz por você.

