![]() |
| Sou um louco deste bando ensandecidamente apaixonado |
Na verdade, você já me havia
tocado. Porque o destino escolhera a dedo o dia em que eu nasci: a maior de
todas as lendas contava que tu ousavas dividir o Maracanã com os devotos da
máquina tricolor. Licinho estava lá. Voltou repleto de poeira e choro. Preocuparam-se
todos. O que aconteceu? “A gente se classificou”. Houve quem se aborrecesse.
Quanta bobagem! Chorar por futebol? Tá louco? Só quem é entende!
Confesso que o encanto levou
tempo pra fazer efeito. Mas, quando tomou conta, não havia mais volta. Aquele
fatídico 87 sacramentou a tua escolha por mim. Que sufoco! Éramos os piores do
Paulista. Mas, num trabalho de Formiga, fomos nos reerguendo.
É como diz uma certa máxima: se
deixar o gigante chegar, sai de baixo. Na semifinal, levantou poeira sobre os santistas
num contundente 5 a 1. Pra sacramentar uma improvável final contra o São Paulo.
No dia do jogo final, eu estava em
rápida viagem; no carro, muitos familiares. Lá por umas tantas, alguém resolveu
perguntar pra quem cada um iria torcer. Marcia, minha mãe, Sonia, a madrinha, e
Bruno, meu irmão, eram tricolores de carteirinha. O palmeirense Tadeu,
motorista do carro, também torceria pelo São Paulo. Estavam quase todos contra
mim. Eu só escapei da solidão porque meu pai, neutro, escolheu o Corinthians.
Era a tradução do insuportável “contra tudo e contra todos”.
Do lado de lá do rádio, a
história era contada por José Silvério. Os tricolores venceram o primeiro jogo
por 2 a 1, e tinham a vantagem do empate. Na prorrogação, o Mauro chegou a
carimbar o travessão. Não teve jeito: eles levaram a melhor e eu chorei –
infelizes, meus pais se aborreceram. Quanta bobagem. Não sabe perder? Pelo amor
de Deus. Só quem é entende!
No ano seguinte, nova final.
Muitos reclamaram daquele gol impedido do Biro-Biro contra o São Paulo. E não é
que o Palmeiras resolveu dar uma mãozinha? Venceu os tricolores e nos
classificou. Do lado de lá, o excelente time do Guarani despachava o São José.
E, com Neto e Evair, respiravam boa dose de favoritismo.
Estávamos na casa do são-paulino
Edson Luis. “Hoje vou ver o Corinthians perder”. Já começava a me acostumar com
tamanha animosidade. Era todo o mundo vestido com o manto verde do Bugre. Pra
piorar, o Neto tinha engatado uma bicicleta no jogo do Morumbi. Empatamos depois,
mas tínhamos uma missão bastante complicada: vencer, fora de casa, um time
considerado melhor.
Dificuldade; tensão; igualdade;
prorrogação. Sucumbiríamos mais uma vez? Até que Wilson Mano arrisca da entrada
da área. Sergio Néri tenta tirar com os olhos. Luis Alfredo exulta: Gol do
garoto Viola. O jovem centroavante corrigira a trajetória e selara a vitória. E eu
deixei fluir uma emoção que nem mesmo sabia de onde chegara. Até quem é às
vezes não entende.
Era só a primeira de tantas, que
valem novas histórias. Eu e meus quase quarenta estou contido de leve nos teus
cento e quatro. E muito feliz por isso, agradeço pela escolha.
Obrigado, Corinthians!
PS: Licinho e Edson Luis já não estão mais entre nós. Mas vivem. Tenho certeza disso! Fiquem com Deus.

Nenhum comentário:
Postar um comentário