terça-feira, 2 de setembro de 2014

Louco do bando

Sou um louco deste bando ensandecidamente apaixonado
Ainda me lembro do primeiro contato contigo. Era uma versão menor daquela linda camisa preta listrada. Dada pelo Licinho, meu padrinho. Eu mal sabia falar o seu nome ainda, de tão difícil que me parecia.

Na verdade, você já me havia tocado. Porque o destino escolhera a dedo o dia em que eu nasci: a maior de todas as lendas contava que tu ousavas dividir o Maracanã com os devotos da máquina tricolor. Licinho estava lá. Voltou repleto de poeira e choro. Preocuparam-se todos. O que aconteceu? “A gente se classificou”. Houve quem se aborrecesse. Quanta bobagem! Chorar por futebol? Tá louco? Só quem é entende!

Confesso que o encanto levou tempo pra fazer efeito. Mas, quando tomou conta, não havia mais volta. Aquele fatídico 87 sacramentou a tua escolha por mim. Que sufoco! Éramos os piores do Paulista. Mas, num trabalho de Formiga, fomos nos reerguendo.

É como diz uma certa máxima: se deixar o gigante chegar, sai de baixo. Na semifinal, levantou poeira sobre os santistas num contundente 5 a 1. Pra sacramentar uma improvável final contra o São Paulo.

No dia do jogo final, eu estava em rápida viagem; no carro, muitos familiares. Lá por umas tantas, alguém resolveu perguntar pra quem cada um iria torcer. Marcia, minha mãe, Sonia, a madrinha, e Bruno, meu irmão, eram tricolores de carteirinha. O palmeirense Tadeu, motorista do carro, também torceria pelo São Paulo. Estavam quase todos contra mim. Eu só escapei da solidão porque meu pai, neutro, escolheu o Corinthians. Era a tradução do insuportável “contra tudo e contra todos”.

Do lado de lá do rádio, a história era contada por José Silvério. Os tricolores venceram o primeiro jogo por 2 a 1, e tinham a vantagem do empate. Na prorrogação, o Mauro chegou a carimbar o travessão. Não teve jeito: eles levaram a melhor e eu chorei – infelizes, meus pais se aborreceram. Quanta bobagem. Não sabe perder? Pelo amor de Deus. Só quem é entende!

No ano seguinte, nova final. Muitos reclamaram daquele gol impedido do Biro-Biro contra o São Paulo. E não é que o Palmeiras resolveu dar uma mãozinha? Venceu os tricolores e nos classificou. Do lado de lá, o excelente time do Guarani despachava o São José. E, com Neto e Evair, respiravam boa dose de favoritismo.

Estávamos na casa do são-paulino Edson Luis. “Hoje vou ver o Corinthians perder”. Já começava a me acostumar com tamanha animosidade. Era todo o mundo vestido com o manto verde do Bugre. Pra piorar, o Neto tinha engatado uma bicicleta no jogo do Morumbi. Empatamos depois, mas tínhamos uma missão bastante complicada: vencer, fora de casa, um time considerado melhor.

Dificuldade; tensão; igualdade; prorrogação. Sucumbiríamos mais uma vez? Até que Wilson Mano arrisca da entrada da área. Sergio Néri tenta tirar com os olhos. Luis Alfredo exulta: Gol do garoto Viola. O jovem centroavante corrigira a trajetória e selara a vitória. E eu deixei fluir uma emoção que nem mesmo sabia de onde chegara. Até quem é às vezes não entende.

Era só a primeira de tantas, que valem novas histórias. Eu e meus quase quarenta estou contido de leve nos teus cento e quatro. E muito feliz por isso, agradeço pela escolha.

Obrigado, Corinthians!

PS: Licinho e Edson Luis já não estão mais entre nós. Mas vivem. Tenho certeza disso! Fiquem com Deus.

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